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Sofri uma derrota pessoal, mas conquistei uma vitória coletiva.
Em entrevista à Princípios, o
ex-ministro do Esporte, Orlando Silva, analisa o “pesadelo” que viveu
recentemente, quando a mídia e setores da oposição ultrapassaram todos
os limites em uma sórdida campanha para derrubá-lo.
No último dia 29 de novembro, dirigentes
do Partido Comunista do Brasil protocolaram na Vara Civil Especial de
Brasília três ações judiciais contra as empresas Globo e Abril e
jornalistas da revista Veja, autores de matérias caluniosas contra o
partido e contra o então ministro do Esporte, Orlando Silva, que deixou o
ministério no final de outubro.
A ação movida pelo PCdoB tenta fazer
justiça buscando punição para pelo menos uma parte das diversas calúnias
que a mídia espalhou no episódio. Foram raros os jornalistas da grande
imprensa que tiveram a decência de não aderir à onda denuncista e
sugerir que não se podia tratar acusações sem provas como verdade. Entre
eles estava Jorge Bastos Moreno, a quem Orlando dirigiu uma carta
relatando o “tsunami político” que viveu.
Na carta, Orlando afirma: “Estou
acostumado com luta política, com crítica, divergência ideológica,
ataques à gestão, antipatia pessoal, insatisfação com estilo... tudo
isso eu sempre compreendi. Mas, mentir!? Inventar uma história para
atacar a honra de uma pessoa e de um partido!? Imaginava que luta
política tivesse limites, afinal, até na guerra há limites. Estava
enganado. A partir de uma farsa, foi organizada uma verdadeira campanha
para me derrubar”.
Nesta entrevista à Princípios, Orlando
Silva reafirma o conteúdo do texto enviado ao jornalista e acrescenta
informações explicando porque decidiu sair do Ministério e quais seus
planos para o futuro.
Reafirmando com convicção sua inocência e
celebrando o fato de que o episódio reforçou a unidade dos comunistas,
Orlando avalia: “Sofri uma derrota pessoal, mas conquistei uma vitória
coletiva. O indivíduo não deve se sobrepor ao coletivo. Ao final, me
sinto um vitorioso. A batalha foi dura, tivemos baixas, teremos que
recuperar espaço, reconstruir muita coisa, mas venceremos. O fato é que
saí do governo de cabeça erguida. Pela porta da frente, apesar da
campanha suja que moveram contra mim. Em minha última manifestação, no
Palácio do Planalto, disse, olhando nos olhos da presidenta da
República: sou inocente!”.
Leia, a seguir, a íntegra da entrevista realizada por e-mail com Orlando Silva:
Princípios: Com a saída do
ministro Lupi, são sete ministros afastados por pressão da grande mídia.
No episódio dos ataques à sua gestão no Ministério do Esporte, você
dise que se tratava de um movimento maior para desestabilizar o governo
da presidenta Dilma. Continua convicto quanto a isso?
Orlando
Silva: O Presidente Lula abriu um novo ciclo na vida política
brasileira, introduziu novos atores na cena nacional, os partidos de
esquerda e o movimento popular e dos trabalhadores. O Brasil mudou de
patamar no cenário internacional, mudou de referências. Nosso país
retomou o crescimento. Dessa vez, reduzindo desigualdades sociais e
regionais. Uma série de direitos outrora negados ao nosso povo começaram
a ser ofertados. Há mais democracia. A presidenta Dilma é fruto desse
processo de renovação. Com sua eleição, o Brasil pode, inclusive,
aprofundar e acelerar as mudanças necessárias ao desenvolvimento do
país. Esse projeto, que o meu partido, o PCdoB, apoia, fere interesses
de parte das elites e é contra isso que eles se levantam, usando os
instrumentos que possuem. Imagino que a presidenta já tenha percebido o
jogo.
Princípios: Qual avaliação você
faz do papel da imprensa não só neste episódio que o envolveu, mas nos
demais casos em que o denuncismo sem provas acaba com a reputação de
agentes públicos?
Orlando Silva: A fraca oposição política
dos partidos conservadores levou setores da mídia a desempenharem o
papel de oposição. E eles estão fazendo isso da maneira mais sórdida.
Imaginava que luta política tivesse limites, afinal, até na guerra há
limites. Mas eu estava enganado, eles ultrapassaram todos os limites,
inclusive o limite do absurdo.
Na luta política somos levados a
conviver com críticas, divergências ideológicas, ataques à gestão,
antipatia pessoal, insatisfação com estilo... Tudo isso eu sempre
compreendi. Mas o que foi feito extrapolou tudo isso. Inventaram uma
história, uma mentira deslavada para atacar a minha honra e a de meu
partido. A partir de uma farsa, foi organizada uma verdadeira campanha
para me derrubar.
Todos os contratos e convênios do Ministério foram
revirados. Tudo foi investigado. Diariamente, dezenas de perguntas
chegavam das redações da imprensa e nossa assessoria tinha prazos
mínimos para responder. E o que é pior, pouco interessavam as nossas
respostas, elas eram ignoradas. As matérias já estavam prontas.
O editorial de um jornalão paulista foi
ao âmago da questão e afirmou com todas as letras: “não importam as
provas, não importa o processo, a acusação basta”. É uma versão atual da
famosa frase “às favas com os escrúpulos”. O mau jornalismo pode
instituir verdadeiros tribunais de exceção, que realizam julgamentos
sumários.
Isso nos serve como um sinal de alerta
de que a democracia está sendo golpeada. Eu defendo a liberdade de
expressão. A história de meu Partido é marcada pela defesa das
liberdades. O exercício da democracia pressupõe a existência de imprensa
livre. Mas a ninguém deve ser permitido atacar a democracia, e na minha
opinião a manipulação das informações, a distorção de dados, a
publicação de mentiras e a negação do legítimo direito de resposta são
ataques à democracia.
Você tem veículos de comunicação que são
concessões públicas, e toda concessão pública deve ser regulada, até
porque são atividades econômicas e atividade de elevado interesse
público. Penso que a sociedade brasileira tem dado mostras de estar
alerta e o próprio comportamento do eleitorado brasileiro nos últimos
anos revela que nosso povo forma seu juízo de maneira cada vez mais
independente da opinião publicada.
Princípios: Como você mesmo
afirmou logo que os ataques começaram, nenhuma prova surgiu até agora. O
regaste da verdade e a luta para provar sua inocência é agora sua
prioridade?
Orlando Silva: Insisto. Não houve , não há e não
haverá provas contra mim acerca das difamações que sofri por um fator
muito simples, são mentiras as acusações que sofri. Os fatos narrados
não existiram. E quem eram os porta-vozes das mentiras? Dois personagens
da crônica policial de Brasília. Gente que está sendo processada por
iniciativas do Ministério que eu dirigia, e de quem exigimos a devolução
de dinheiro público desviado.
Ofereci a abertura de minha vida:
sigilos fiscal, bancário, telefônico e de correspondência. Desmontei a
farsa contra mim na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Propus a
apuração dos fatos publicados pela Comissão de Ética Pública, pelo
Ministério Público e pela Polícia Federal. Foi minha a iniciativa e
tentaram inverter a ordem, como se eu tentasse encobrir algo.
Infelizmente na política se inverte o ônus da prova, eu sofro calúnia e tenho que provar que sou vítima de uma mentira.
Buscar a verdade é minha prioridade,
para defender minha honra e a honra de meu Partido, que tem 90 anos e
uma história belíssima, limpa.
Princípios: O PCdoB decidiu
entrar com ações contra a Veja e a Época por causa das calúnias que
divulgaram contra o Partido. Você também pensa em processar os veículos
pelas falsas denúncias que lançaram contra você?
Orlando Silva: Apoio a decisão do meu partido de entrar com as ações judiciais e creio que já são suficientes.
Princípios: A suposta relação
partidarizada do Ministério com as ONGs foi o principal argumento usado
pela oposição para as denúncias. O que há de problemático nesta relação
com as ONGs?
Orlando Silva: Primeiro, é preciso dizer que
existem ONGs e ONGs. Há entidades corretas, que prestam serviços a
populações muito sofridas e que chegam a substituir o Estado em suas
funções, oferecendo oportunidades a parte importante de nossa população.
E há entidades que não têm funcionamento adequado. Aliás, essa
observação vale também para governos, estaduais e municipais, alguns são
competentes, outros não.
Segundo, chamam de ONGs algumas
entidades e organizações do movimento social cuja natureza é distinta,
são instituições que servem à democracia, que ajudam a organizar setores
da sociedade e essa generalização e ataque serve para inibir a relação
entre governo e movimento social, isso está errado. O governo pode e
deve, sem tutelar, oferecer apoio para desenvolver e organizar a
sociedade civil brasileira, isso aperfeiçoa a democracia.
Se alguma ONG comete erros, é preciso
corrigi-los com os mecanismos legais existentes. Ninguém chega para
celebrar um convênio anunciando que está mal-intencionado, que pretende
fazer daquela parceria uma forma de ganhar dinheiro fácil.Os malfeitos
são identificados a partir da fiscalização. Daí a necessidade de
acompanhar o cumprimento do que foi estabelecido. É o que fazíamos.
Isso também vale para governos e para
indivíduos, sejam agentes públicos ou representantes de instituições.
Assim agimos no Ministério.
Quando, ao fiscalizarmos nossas
atividades encontrávamos algum erro, atuávamos para corrigi-los, doesse a
quem doesse, com isenção e independência, mas a manipulação da mídia
encobriu essa nossa atitude. Deram ares de escândalo ao trabalho de
acompanhamento e fiscalização que realizávamos.
Por fim, é preciso reafirmar que nenhuma
prova demonstra benefício ao PCdoB por meio dessas entidades. Mas para
certos jornlaistas ser filiado um partido virou “prova de crime”. Se o
ministro é do PCdoB, não se pode admitir que um secretário da área seja
também. O mesmo vale para entidades. Não se admite que qualquer filiado
ao partido participe de entidade. Isso não é democrático. Os partidos
políticos são livres e as pessoas têm direito de se organizar como lhes
convier.
Princípios: É possível identificar que interesses estavam por trás dos ataques à sua pessoa, ao Ministério e ao Partido?
Orlando
Silva: Além do objetivo de golpear o governo da presidenta Dilma, já
analisado em pergunta anterior, a cobiça por um Ministério que se tornou
importante com a Copa do Mundo e as Olimpíadas, e os grandes interesses
que você teve que contrariar também foram agentes motivadores da
campanha contra sua gestão?
Eu me vi no centro de contradições
importantes. Quando assumi o Ministério do Esporte, ele era um patinho
feio, hoje virou um cisne. Grandes eventos mobilizam muitos interesses
políticos e econômicos. Quando me manifestei, não representava apenas
minha opinião, era a opinião do governo, isso gerou contradições,
algumas importantes. Sou militante e dirigente político, defendo um
protagonismo cada vez maior do meu Partido e despontava como uma
liderança importante. Tudo isso pode ter estimulado o cerco e os
ataques.
Princípios: De todas as ilações e
falsas denúncias que lançaram contra você, o que mais te incomodou,
quais foram as calúnias que mais o deixaram indignado?
Orlando
Silva: Deixou-me indignado a acusação falsa e absurda de que eu agia
para desviar dinheiro público. Isso fere a honra pessoal, machuca a
família. Não acreditei quando tentaram arrastar minha família, que me
orgulha tanto, com insinuações e mentiras. Fiquei revoltado com a
afirmação de que o Partido era beneficiário de esquemas que nunca
existiram. Me revoltou a perseguição a camaradas de todo o país,
tentando atingi-los po liticamente, parecia uma caça aos comunistas,
querem atrapalhar nosso crescimento e nosso desempenho eleitoral. E
fiquei muito triste, quando vi um jornal atacar nosso memorável João
Amazonas, eles queriam nos desestruturar emocionalmente. Mas procurei
resisti, discuti, explicar, mas aos poucos fui percebendo que eles não
queriam esclarecer, queriam confundir, queriam atacar a mim, ao Partido e
ao Governo. Indignado fiquei em todo o processo.
Princípios: Como você avalia as manifestações de racismo e anticomunismo que surgiram no bojo dos ataques?
Orlando
Silva: Sinal de atraso do Brasil. Se você observa a elite política
brasileira verá uma participação muito tímida de negros e negras. Aliás,
o meu Partido deve ser o que tem o maior contingente de negros entre
seus dirigentes e líderes. O combate ao racismo e a todas as formas de
discriminação é uma tarefa permanente e prolongada, como é o combate ao
anticomunismo. O futuro nos pertence, devemos ser generosos e combater o
preconceito com informação para o povo, e luta por oportunidades iguais
para todos.
Princípios: Durante o período em
que a imprensa o atacou, você recebeu várias manifestações de
solidariedade, de dentro e de fora do governo. Quais declarações de
apoio foram mais importantes?
Orlando Silva: Todo apoio é
importante. O apoio de minha família foi decisivo. A direção do Partido,
a partir do presidente Renato Rabelo, ação das bancadas na Câmara e no
Senado, os militantes em todo o Brasil. Nossa juventude promovendo ações
de apoio nas redes sociais. Mas encontrar solidariedade em quem me
conhece seria natural, o que surpreendeu positivamente foram posições de
alguns intelectuais, artistas, atletas, gente simples do povo. Até
mesmo entre jornalistas e parlamentares de oposição houve quem sugerisse
apurar fatos, valorizar o contraditório e não tratar denúncia como
prova.
E diante de tantos ataques, me comovia
quando pessoas do povo prestavam solidariedade. Numa ida ao Congresso
Nacional, uma senhora que servia café me chamou no canto da sala e me
ofereceu uma oração, disse que orava por mim todos os dias, e que a
verdade um dia viria à tona, por pouco não fui as lágrimas.
Também me comoveu o gesto de confiança
demonstrado tanto pela presidenta Dilma quanto pelas lideranças
políticas que estiveram presentes na posse do novo ministro, quando me
despedi da função ministerial e reafirmei minha inocência.
Princípios: Em que momento e por qual motivo você decidiu que não era mais possível continuar à frente do Ministério?
Orlando
Silva: A minha decisão pessoal foi motivada pela defesa do meu Partido.
Quando a oposição, incluída aí a midiática, percebeu que os ataques não
abalavam minhas convicções, que as provocações pessoais não mexiam com
meus brios, eles apelaram para uma onda generalizada de mentiras contra
camaradas em todo o Brasil.
De que adiantava seguir ministro e
assistir ataques generalizados com objetivo de minar nosso crescimento?
Não seria adequado, não seria inteligente. Até porque, nós criamos as
condições para impedir, derrotar o real objetivo da oposição que era
retirar o Ministério do Esporte do comando do meu Partido, pela
importância que ele ganhou. Sofri uma derrota pessoal, mas conquistei
uma vitória coletiva. O indivíduo não deve se sobrepor ao coletivo. Ao
final, me sinto um vitorioso. A batalha foi dura, tivemos baixas,
teremos que recuperar espaço, reconstruir muita coisa, mas venceremos.
Princípios: De sua gestão no Ministério do Esporte, quais foram as realizações que mais te orgulham do trabalho feito?
Orlando
Silva: Realizar os Jogos Pan e Parapanamericanos com grande sucesso.
Defender o Brasil nas conquistas da Copa e das Olimpíadas, colocando o
país no centro da agenda esportiva internacional nos próximos 10 anos.
Entregar 6.000 obras de infra-estrutura esportiva em todo o país, de
quadras em escolas até grandes complexos esportivos. Desenvolver o Bolsa
Atleta, maior programa de apoio direto a atletas de alto rendimento do
mundo. Desenvolver programas sociais como Segundo Tempo e Esporte e
Lazer das Cidades, oferecendo atividade física orientada para um número
de jovens e crianças nunca antes alcançado no Brasil. Elaborar e
implantar a Lei de Incentivo ao Esporte, estímulo fiscal para
investimento privado no esporte, uma reivindicação de 40 anos do setor.
Apoiar os clubes sociais e a evolução técnica de várias modalidades
olímpicas e paraolímpicas. Garantir a ampliação da produção de ciências
do esporte.
Implantar medidas para apoiar o futebol, sobretudo os
clubes formadores; e ao mesmo tempo garantir mais segurança e conforto
para os torcedores.
Princípios: É possível dizer que hoje o Brasil tem uma política nacional de esporte?
Orlando
Silva: Sim. Basta observar as resoluções das três Conferências
Nacionais do Esporte, o planejamento do Ministério e as conquistas
realizadas. Saímos da fase de escrever propostas de Política Nacional,
afinal papel aceita tudo. Temos conquistas, realizações, ou alguém
imagina que tudo que foi feito caiu do céu? O desafio é avançar mais,
acredito que o Aldo poderá fazê-lo. É um homem público exemplar,
experiente e tem um bom patamar inicial, e o que é melhor, diferente do
que se diz por aí, ele encontra o Ministério arrumado, pronto para
crescer mais.
Princípios: O que sua gestão
deixou de fazer que você gostaria de ter feito? E quais são os
principais desafios do Ministério do Esporte para o próximo período?
Orlando
Silva: Avancei menos que desejava na relação com a educação, embora a
parceria entre o Segundo Tempo (Esporte) e o Mais Educação (MEC),
iniciada em 2010, já tenha alcançado quase 5.000 escolas. Essa relação
entre esporte e educação é muito importante para o futuro do esporte
brasileiro. Os desafios do Ministério para o próximo período serão
orientados e implantados pelo novo ministro.
Princípios: Quais são seus planos de trabalho e atuação política agora que não está mais no Ministério?
Orlando
Silva: Volto para minha casa em São Paulo, a mesma onde vivo há dez
anos. Pretendo voltar à Universidade de São Paulo. Sou dirigente
nacional e paulista do meu Partido, tenho tarefas a cumprir. Gostaria de
ser candidato em São Paulo. E escrever um livro sobre minha
participação no governo, tenho histórias muito boas para contar, e podem
servir de aprendizado para os mais jovens.
Fonte: Cláudio Gonzalez, editor-executivo da revista Princípios, entrevistou Orlando Silva por e-mail